E como sempre eu nunca sei onde está o que preciso no momento exato que procuro. É de praxe. O desespero bate e eu faço promessas. Repito que tentarei ser mais organizada, proponho mentalmente em milésimos de segundos que logo apagarei da memória um sistema que garanta a ordem de tudo. Justamente hoje, afinal o dia da agonia presente é sempre o pior. Se já passou, já foi, não dói mais… Entretanto agora é sempre pior.
Olho o relógio e prevejo mais um atraso. Diferente seria se isso não acontecesse. Não seria eu, como você mesmo diz. Mas eu juro que hoje comecei o ritual mais cedo. Cronometrei meus passos. O problema foi que no “pulo do gato” abri a gaveta.
A desculpa seria a procura de um dos meus anéis preferidos. Como vivo entre os momentos que estou com ele em minha mão direita e os outros tais que o perco, nada era novidade.
No entanto, apesar do caos em meu quarto, eu sabia que ele jamais estaria por ali. A terceira gaveta do lado esquerdo tem vida própria e dificilmente acolheria minha prenda.
Caí na tentação de abri-la.
Encontrei:
- Sorrisos diluídos em 10x15
- Guardanapos timbrados com lábios rubros
- Melodias que provocam aquele gostoso e às vezes doloroso “musicaos” aqui dentro
- Prosas poéticas
- Psicotrópicos de desejo
- Cartões de uma visita permanente
- Diários de bordo do cotidiano
- Amostras grátis de respeito
- Excesso de bagagem que garantem a leveza do espírito
- A antologia incompleta de teus beijos
- Gradientes de paixão
- A frangrância que me faz suspirar e desejar perder o equilíbrio
- Manuais nada secretos sobre elementos essenciais dessa parceria
- Sentimentos sem margem para photoshop
- Compilações de mistérios próprios
- Constâncias inconstantes
- Overdoses de cumplicidade
- Traços nem sempre lineares, no entanto intensos
- Vazios completados por peças de quebra-cabeças que só a gente entende
Sem muito esforço, na ausência de películas, chassis ou qualquer químico consegui revelar ali a digital de um amor infinito; passagens de ida para um sequestro sem resgate.
Romina Cácia



