quinta-feira, 5 de novembro de 2009


Se algum dia lhe disserem que fui acometida por um mal súbito, não se engane. A ansiedade sempre esteve aqui.

|Romina Cácia|

imagem daqui.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lilian


Ela não era santa, não vai ser a saudade que vai me fazer esquecer ou ficar cega. Tinha o dom para me tirar do sério, me irritar e a querer bem longe, mas nunca quis que fosse tão distante assim. Nossos encontros eram datas marcadas no calendário e um amor em comum nos unia. Não sei se sofro por mim, por ela ou por esse amor que eu tenho certeza que agora chora. Tenho uma sensação estranha. Não posso dizer que foi bem feito, que ela mereceu... muito menos que não era previsível.

Lembro dos seus extremos, da naturalidade para o “insano”, da delicadeza em momentos inesperados que nenhum de nós ousou algum dia pensar que passasse por ela. Queria um “além” que não se entendia.

Vi magrela, vi mulher, vi moleca, vi apaixonada e jamais a verei em minha idade de agora, assim como não será possível que a veja passar pelo que agora passo.

Éramos um oposto quase igual, talvez fôssemos iguais e apenas tivéssemos disfarces e fantasias difrentes. Eu sinceramente não sei. Eu sei que eu gostaria que não fosse verdade. Que as manchetes e os boatos fossem mentiras ou mais um dos produtos da minha imaginação. Eu lembro do nosso amor e sofro. Nosso único elo agora tão distante... Não é justo sofrer, fazê-la ficar assim. Dói.

Dizem que talvez gostasse de cada coisa a seu tempo, que tivesse sua maneira especial de sentir-se à vontade, que a teimosia era uma forma de fuga, assim como a preguiça a sensação de estar desligada de tudo. Não sei se era inocente ou pura, apenas que se afogou em desejos que nunca saberei descrever.


|Romina Cácia|

sábado, 15 de agosto de 2009

Panorâmica

Não sei porque insisto em te colorir se te vejo em preto e branco. |Sou tão monótona e limitada assim?| Ao contrário, você tem tantas tonalidades que me sobra indecisão sobre qual cor escolher para tentar te pintar. |Agora você me deixou confusa.| Você que tem o dom natural de me confundir. Teu sim nunca extermina a possibilidade de um não, além de flertar com um talvez. Eu me perco na imensidão da infinidade de opções entre teus vazios. |Infinidade? Eu não sou um retrato preto e branco? Você que começa a me confundir agora.|

Ela tira a sandália, sai arrastando a barra do vestido e senta. Ele serve-se de mais uma dose. Observam-se sem cruzar olhares. Ela acaricia algumas teclas como se tivesse a intenção de tocar algo. Ele suspira e se aproxima. Larga o copo em cima da mancha que virou seu porta-copos personalizado e toca uma música que inquieta. Mal pressiona a última tecla e recomeça.

Você é preto e branco, pois nem quando deseja consegue ser óbvia, direta. |Você não se gabava por apreciar o que fugia do comum?|

Ela sabia exatamente o poder de suas provocações . Ele também conhecia e por isso sorriu com o canto da boca. Pronunciou algo num idioma que ela nunca aprendeu a reproduzir, mas que sempre teve o poder de afagar sua alma e seu ego. Então tentou-lhe explicar.

Você é preto e branco porque aparentemente não guarda muito mistério. Porém essa primeira impressão se esvai quando se tenta ultrapassar a superficialidade do contato. Mesmo assim ainda é difícil te “revelar”. O que de longe parecia apenas preto e branco vai se transformando em infinitos tons de cinza com a intimidade. A incerteza que você me provoca é teu jogo entre luzes e sombras. Você é de uma riqueza de tonalidades que eu não me julgo capaz de tentar decifrar apenas com nanquim. Por isso acabo tolamente tentando te caricaturar através da minha aquarela, mesmo sabendo que é ingenuidade minha acreditar que seria possível reproduzir no papel as intensas sutilezas tão próprias de tua dança entre a presença ou ausência de luz.

Ela sorriu e tentando não se envaidecer o convidou para compor consigo o próximo ato.

|Você me daria o prazer de mais uma dança?|



Romina Cácia

P.S. Ilustração roubada do blog da Luyse.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ça va?

Sim, eu inventei de tentar aprender francês e, ao contrário do que eu esperava, tem sido uma experiência apaixonante. Mas não é sobre isso que vamos conversar hoje. Esse é apenas um sinal de fumaça para avisar que o blog não foi abandonado. Tenho passado por um período um pouco confuso nos últimos meses e não tenho produzido ou pensado em coisas interessantes pra expor por aqui. Até pensei em abrir um parêntese e falar sobre o cotidiano já que a ficção anda me deixando na mão. Fiquei com o pé atrás, na verdade, continuo. É fato que o objetivo do blog no início era contar sobre o dia-a-dia no velho mundo, mas depois eu me rendi aos prazeres da vaidade literária. Daí que eu resolvi não ser mais um diário. Nada contra, leio vários e gosto muito. No entanto, não sei se vale a pena ficar falando pra todo mundo o que anda acontecendo no misterioso mundo rominicaciano. As portas estão sempre abertas, porém poucos se atrevem a ultrapassá-las. Por isso, por enquanto vou ficando naquele silêncio tagarela que ensurdece. Não é um ponto final, apenas reticências; agridoces intervalos até o próximo ato.

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Sobre o direito de ser sincera e não mecânica

Relutei, mas decidi que seria válido comentar. Se existe algo que me deixa puta da vida é quando alguém pergunta como você está sem interesse algum em saber a verdade. De repente você não tem mais o direito de ser sincera. Quer dizer, até pode se arriscar, agora se vai ser escutado é outra história.

Meu último companheiro de apto em VLC tinha esse defeito, sempre que nos esbarrávamos ele perguntava como ia tudo e eu algumas vezes inventei de querer responder algo além de "bem". Não importava se eu mandava um "... muito bem porque consegui um emprego em tal lugar" ou " ... confuso por conta do fim de um namoro"; a reação era a mesma: ele continuava o que estava fazendo e não se preocupava em ao menos fingir que escutava o que eu estava dizendo.

Não estou querendo que a partir de agora sejamos psicólogos de cada um que nos cerca, apenas peço o direito de ser sincera. Talvez por querer tanto isso de volta eu muitas vezes esqueça o protocolo do "Oi, tudo bem?". Não é apenas falta de jeito com rituais pré-moldados, porém respeito com quem converso. Quando pergunto estou realmente querendo saber como alguém está e disposta a querer escutá-lo. Sou programada para sentir e não apenas reproduzir scripts alheios.

|Romina Cácia|